Produtor do Vital fala da elitização do Carnaval e das festas de axé

Produtor do Vital fala da elitização do Carnaval e das festas de axé

Arquivo pessoal Claudinha Leitte, vocalista do Babado Novo e o empresário Beto Gomes

Agora indoor, entre os dias 10 e 12 de novembro vai rolar a 13ª edição do Vital, uma das mais tradicionais micaretas do Brasil. De acordo com o empresário capixaba Luiz Roberto Camara Gomes, cerca de 100 mil pessoas devem curtir a festa nos três dias de folia na cidade de Vitória.Formado em administração, Beto Gomes é uma das pessoas mais influentes e respeitadas do mercado do axé. Além de ser diretor executivo da empresa Ondaluz, que organiza o Vital, ele ainda é Presidente do Fórum Nacional das Empresas de Eventos e Carnaval Fora de Época.Nesta entrevista exclusiva ao Carnasite, o empresário fala da 13ª edição do Vital e por que as micaretas estão deixando às ruas para serem realizadas em locais fechados, afirma que vê com bons olhos a renovação do público dos eventos de música baiana, explica que a velha fórmula de produzir shows está superada e revela que está preocupado com a situação do próximo Carnaval de Salvador, já que os preços dos principais blocos estão fora da realidade econômica para a maioria dos brasileiros apaixonados pelo axé.Carnasite - Neste ano o Vital está deixando às ruas para ser realizado num circuito indoor, montado na Praça do Papa. Qual a expectativa para a 13ª edição do evento?Beto Camara Gomes - A melhor possível. O local é de fácil acesso, muito bonito e é a principal área de eventos da Grande Vitória. Conseguimos encaixar um projeto que vai aliar conforto e segurança com alegria e diversão. A formatação do Vital 2006 está perfeita com as maiores atrações deste segmento devidamente confirmadas. Não tenho dúvida nenhuma que esta será a melhor edição do carnaval fora de época de VitóriaCarnasite - Apesar da brusca mudança, ao deixar a Avenida Beira Mar para ser realizado num circuito indoor, os leitores do Carnasite elegeram o Vital a melhor micareta do Brasil do segundo semestre. Vocês tiveram 15,60% dos 4.141 votos. Como vocês analisam este resultado? Foi um “tapa de luva de pelica” nas pessoas que tanto tentaram acabar com a tradicional micareta de Vitória?Beto - Foi com muita honra que recebemos este resultado. Ano passado também estivemos muito bem classificados na enquete. Este ano alcançamos o lugar mais alto. Na verdade não existem pessoas que querem acabar com a micareta. O Vital é o principal evento do calendário de festas do Espírito Santo. O que existem são pequenos grupos contrários a sua realização em locais próximos as suas residências. Mas mesmos estes grupos reconhecem a importância do Vital para o Estado. A movimentação econômica, a geração de empregos e a divulgação turística da cidade são fortemente identificadas como fator positivo e a luta destes grupos é pela mudança de local e não pelo fim da micareta. Mas com certeza a vitória na enquete do Carnasite mostra a estas pessoas o potencial da festa e evidência que os micareteiros do Brasil gostam e se identificam com o nosso Vital. Isso é um orgulho para Ondaluz Eventos.Carnasite - E o novo circuito, como será? Conte detalhes do local onde vai rolar o Vital deste ano. Beto - Conseguimos um circuito fantástico com 1.000 metros de comprimento e os blocos darão duas voltas em formato de “U”. Teremos 270 camarotes e dois blocos: Nana Banana (três dias de Chiclete com Banana) e UAU, Cerveja & Coco (com Babado Novo, Asa de Águia e Ivete Sangalo). A área de pista será separada por uma estrutura elevada com segurança. Dentro da programação oficial, além dos artistas dos blocos, ainda encaixamos outros dois por dia: Banda Eva, A Zorra, Vixe Mainha, Alexandre Peixe, André Lelis e Cheiro de Amor. O local é próximo ao Shopping Vitória, possui 50.000 m² e tem uma linda vista da ponte que liga Vitória a Vila Velha, além do Convento da Penha. A localização é ótima em todos os aspectos. O projeto está perfeito!Carnasite - Os foliões têm aceitado essa mudança? Qual a expectativa de público nos três dias de festa em Vitória? Beto - À medida que as pessoas começam a entender o projeto, a aceitação é imediata. Os camarotes estão esgotados, os blocos estão partindo para o segundo lote e abrimos vendas para pista nesta segunda-feira, dia 23. Temos uma expectativa de 100 mil pessoas nos três dias de festa. A rede hoteleira está 100% bloqueada e a expectativa é que atinjam os níveis das edições anteriores com 90% de taxa de ocupação. Essa é a maior taxa de ocupação da rede de hotéis de Vitória durante todo o ano. Isso demonstra a força do Vital.Carnasite - Nos últimos anos as micaretas têm deixado às ruas para serem realizadas em circuitos indoors. Por que esta mudança radical? É mais lucrativo, seguro e dá menos dor de cabeça fazer um evento fechado?Beto - Na verdade eu acho que as comunidades e as cidades saem perdendo. O projeto na rua é muito mais democrático, onde os compradores de abadá e camarotes proporcionam oportunidade de lazer aos que não possuem renda para assistir grandes espetáculos. Os eventos esperavam que os governantes dessem suporte disponibilizando segurança e estrutura a estes projetos, mas infelizmente isso não aconteceu e para as empresas que organizam as micaretas não resta outra alternativa senão adequar os projetos aos clientes para que de fato possam usufruir a festa. Com isso os eventos passam a ser mais seguros e bem estruturados, porém, menores e com um público predominante das classes A, AB, B, BC e C. A qualidade dos projetos fica inabalada, já que as grandes atrações e trios continuam presentes, assim como o grande público dos camarotes, mas a chamada “turma da pipoca” está excluída. Hoje existe um grande espaço para pista onde as pessoas para ter acesso deverão adquirir ingressos, e é ali que as pessoas que adoram o axé de outras classes de renda terão a oportunidade de assistir os seus ídolos, já que os elevados custos de produção das festas “folias” exigem um valor de ingresso mais elevado. Não enxergo “dor de cabeça” em fazer eventos. Quem faz o que gosta não se incomoda de trabalhar bastante para ver o seu projeto realizado com sucesso. A preocupação com a segurança, com a estrutura e com o conforto do folião é constante e está presente seja na rua ou indoor. A rentabilidade é relativa, pois quem trabalha com eventos fica sempre vulnerável as questões climáticas e econômicas. Existem situações bem distintas nas duas formatações que podem variar o resultado econômico de cada projeto. Carnasite - As micaretas geram empregos, aquecem a economia das cidades e claro, proporcionam entretenimento para milhares de pessoas. Em contrapartida, inúmeras associações de moradores brigam e vão à justiça para que esse tipo de evento não seja realizado na sua região. Por que tanta briga para tirar as micaretas das ruas? Existe interferência política neste imbróglio? Já que a parada gay, por exemplo, é realizada numa boa?Beto - Na verdade eu vejo muito egoísmo destas pessoas. Eu costumo traçar alguns paralelos nesta questão. Imaginamos uma feira livre, onde toda comunidade se beneficia com a sua montagem e desmontagem semanalmente. Pois muito bem, quem quer que ela aconteça na rua da sua casa? Todos querem e reconhecem a importância da feira livre, mas ninguém quer na sua rua. Outro exemplo é o ponto de ônibus, onde um bairro inteiro faz uso do mesmo, seja para transporte próprio ou familiares. Muito bem, quem quer o ponto de ônibus na calçada da sua casa? Ninguém quer, mas quer o ônibus por perto, porque ele é fundamental para seu bem-estar. Assim são as micaretas. Toda comunidade enxerga sua importância para sua cidade e não querem o seu fim, mas existe uma tendência a não querer ela por perto. É evidente que estes projetos causam transtorno e incômodo, mas sua importância e benefícios são infinitamente superiores. Carnasite - Indoor ou na rua, as micaretas continuam fazendo sucesso de norte a sul do País, especialmente com as classes A, AB, B e C. No entanto, o público está cada vez mais seleto. Isso não pode ser um “tiro no pé” no mercado do axé a médio e longo prazo? Já que muitos só vão pelo modismo e para “beijar na boca”? O folião fiel e fanático não está cada vez mais em extinção? Beto - O axé é alegre e contagiante e isto está no espírito do brasileiro. Alegria com diversão e segurança é a chave do sucesso. A renovação do público é constante e “beijo na boca” nunca vai deixar de ser moda. O público que hoje freqüenta os camarotes estavam num passado recente nos blocos. Hoje quem está nos blocos estava nos blocos infantis ou acompanhando os pais nos camarotes. Temos vários exemplos de que o público está se renovando. O público do Babado Novo é formado por uma geração jovem. Vejo o crescimento descontrolado do Jammil com um público novo. Asa, Ivete e Chiclete estão com um contingente enorme de jovens acompanhando e curtindo os seus shows. A renovação do público é algo natural. Nas grandes micaretas percebe-se claramente a participação na pista de pessoas que adoram o axé das classe C e D, entretanto, nas festa tipo “folias”, devido ao alto custo de produção, de fato existe uma seleção natural pelo valor do ingresso. A renovação é constante, forte e o folião está sempre querendo novidades.Carnasite - Pegando um gancho na pergunta anterior, até o Carnaval de Salvador, que é considerado o maior e mais popular evento de rua do Planeta, está ficando cada vez mais elitizado, como você analisa este cenário?Beto - A participação popular no Carnaval de Salvador é enorme. A força da cultura continua viva e presente. Porém, acho que está ficando muito caro para o folião participar da festa e isso evidencia as diferenças sociais. É preciso encontrar uma fórmula que alie os resultados econômicos dos empreendedores com o poder aquisitivo dos foliões. Num passado não muito distante a diferença entre os blocos de ponta e um popular era bem menor e essa distinção não era gritante. O surgimento dos grandes camarotes também conspira para que esse cenário fique mais evidenciado. Na verdade existem “grande eventos” dentro do Carnaval e isso tira bastante a poesia, a raiz e o charme da festa, que fica sem sua identidade. Mas o Carnaval de Salvador é a maior festa do Planeta com uma energia sem parâmetros, que projeta e divulga nossa cultura pelos cinco continentes, que contempla todos os setores da nossa sociedade nas suas várias formas de manifestações e percursos espalhadas pela cidade.Carnasite - Diferentemente dos últimos anos, os abadás dos principais blocos ainda não esgotaram, alguns, na verdade, estão encalhados. Este fator não é preocupante? Não é um sinal que os preços praticados estão fora da realidade brasileira? Qual a sua expectativa para o Carnaval 2007?Beto - Muito preocupante e com certeza os preços estão fora da realidade para a maioria dos brasileiros apaixonados pelo axé. Na formatação do custo de um bloco são mais de cem itens conspirando contra o bolso do folião. E alguns são imensuráveis. Quando vale a sua segurança, seu conforto e o seu divertimento? Mas entendo que boa parte destes custos elevados podem ser absorvidos pelos governantes, diminuindo a pesada carga tributária e fiscal que impera sobre essa atividade. Não podemos esquecer que a obrigação de proporcionar lazer a população segundo a constituição é dos governantes. Esse bloco que tem dentro das cordas três mil foliões de abadá está também se apresentando para outras milhares de pessoas que estão ali se divertindo sem investir nada na “pipoca”. Esse mesmo bloco está sendo levado pelas televisões ao Mundo inteiro projetando o Carnaval de Salvador. Isso pode ser levado em consideração criando incentivos para os blocos, proporcionando valores mais baixos para os foliões de abadás. Vejo com muita preocupação o Carnaval 2007, pois estas medidas não estão sendo observadas e os valores continuam elevados e inibindo a compra dos abadás. Carnasite - O Chiclete, Daniela, Asa, Netinho, Ricardo Chaves, Margareth, Olodum… já têm mais ou quase vinte anos de estrada. Ara Ketu, Ivete Sangalo e Timbalada estão na casa dos 15 anos. Quais os artistas da nova geração poderão sucedê-los ou mesmo estar ao lado deles nos próximos anos?Beto - Temos um exemplo concreto em evidência que já é uma realidade consagrada: Babado Novo. Apesar de ter sido formada em 2001, a banda já tem um público fiel.Neste momento quem me agrada bastante é o cantor Alexandre Peixe. Acredito que ele rapidamente estará neste grupo seleto. Ele é carismático, tem boa presença de palco, é simpático e interage com o público. Ele é um compositor fantástico e isso encurtará sua trajetória. Vejo com bons olhos a renovação no Cheiro de Amor. Alinne tem uma voz como poucas e uma energia contagiante. Acho que o Cheiro está voltando com muita força.Carnasite - Finalizando, embora os artistas do axé não toquem bastante nas rádios, sobretudo do eixo Sul/Sudeste/Centro-Oeste e excluindo um ou outro, não são campeões de vendas de CDs e DVD, os eventos de música baiana fazem sucesso em todo o País. A diferença do axé para os outros estilos musicais é que ele vende a festa e não um mero show? Beto - Perfeita essa colocação. Nós vendemos um conceito de diversão, alegria e festa. Gente bonita, boa música, segurança e diversão garantida. Fazemos eventos com no mínimo seis horas de duração, com camisas, conforto, estrutura e outras opções de bandas e segmentos musicais. Não dá mais pra fazer aqueles shows com duas horas de duração, nos ginásios esportivos, sem conforto e sem estrutura. O cliente de hoje quer algo a mais e precisamos ser criativos para acompanhar essa tendência. A velha fórmula de shows está superada e quem não acompanhar e perceber essa evolução vai ficar pelo caminho.